Uma avenida de verdades

11 maio, 2012

Depois de A Favorita, meio que virei admiradora do escritor João Emanuel Carneiro. Se tem uma coisa que a Globo sabe fazer é novelas, vamos admitir. Mas nem a Plim Plim foge dos clichês. Novelinhas com triângulos amorosos, vilões que se dão mal só no final da novela, mocinhas sofredoras, é a receita infalível, claro, mas a realidade vai bem além, e tem muita história bem mais interessante pra contar. O boom da classe C não poderia ser ignorado nas telenovelas, e eis que os personagens sempre caricatos aparecem como protagonistas de um Brasil que existe pra caramba. Li um texto do Arnaldo Jabor n´O Globo e resolvi admitir também: tento não perder um só capítulo da novela Avenida Brasil. Quando posso, assisto, entusiasta. É a revelação de um país que assusta por mostrar a personalidade predominante no país: psicopatas. Duvida?

Em época de Cachoeira, é fácil traçar um parâmetro do que acontece neste país há muito tempo e a novela. Psicopata não se importa com o que suas atitudes podem acarretar. E tem coisa mais comum que isso no Brasil? Crime do colarinho branco é trivial e desviar verba não é mais vergonha. Vergonha é não roubar. Burro é quem é honesto. De A a PTHGSAS… e tudo o quanto é sigla partidária não pode sequer abrir a boca cobrando honestidade. Estão todos presos nessa corja, quer dizer, corda. Vê o senador Demóstenes. Assistam suas proclamações de poucos meses atrás, e leiam as notícias agora.

Jabor previu: nosso futuro é ser psicopata. Isso porque assistimos as vilãs implacáveis como Flora, de A Favorita, e Carminha, de Avenida Brasil, com excitação. Elas nos fascinam porque são cruéis e não sentem culpa por nenhuma de suas atitudes. Nos identificamos com as vítimas, disse Jabor, mas preferimos as vilãs. Com a valorização da satisfação do prazer de forma imediata, estamos mais narcisistas, esquecendo a moral e a ética para acabar não saindo de linha assim como os carros usados. Agora, se esse é nosso futuro, cabe uma revisão de valores. Aliás, valores vêm sendo bem esquecidos ultimamente, quando pais culpam professores pelas notas baixas, pais não dão limites aos filhos, honestidade vira artigo de antiquário.

Lobotomia

7 maio, 2012

Já assistiram The Cola Conquest? O título, na versão abrasileirada, Mundo Cola é um documentário sobre a bebida doce mais consumida no mundo, a Coca-Cola. Inicialmente criado para ser um xarope, de remédio a refrigerante, a Coca-Cola é um mito no que se refere a construção de uma marca, insuperável em todo o mundo.

No documentário é possível acompanhar a criação do logotipo, como nasceu a publicidade americana, a invenção do Papai Noel (gordo de vermelho, assim como conhecemos é uma criação da Coca-Cola), e uma verdadeira lavagem cerebral em que os funcionários da empresa passam para que a Coca jamais perca a sua divindade. Digo divindade porque tomar Coca-Cola se assemelha a seguir uma religião. Não somos obrigados a beber o refrigerante, mas ao escolher essa bebida nos tornamos parte de um grupo, ganhamos uma identidade construída a partir da marca: isso é consumismo.

A Pepsi, um refrigerante de cola semelhante à Coca, lutou por anos e anos para assumir a liderança. Em vão. Artistas como Michael Jackson, nos anos 80, não puderam superar sequer os ursos brancos da Coca-Cola. Então, duas décadas depois, a Pepsi enfim assume o segundo lugar com o slogan “Pode ser Pepsi?”.

Semelhante a essa lógica de consumo é a ideologia de um partido brasileiro. Serão doze anos ininterruptos no poder logo mais. Recentemente o partido realizou assembléias em todo o país com uma missão: candidatos a prefeito em todos os municípios brasileiros. Marketing de guerrilha é o que assumiu o partido. Estratégia e um contexto histórico que vem dando crescimento ano após ano, com ajuda dos filiados que se acumulam no país.

Dou outro lado, o partido que hoje é oposição também parece assumir o segundo lugar, assim como a Pepsi, nos últimos anos. Sem se entender, o partido tem egos evoluídos demais, e lutam entre si e não conseguem uma unidade. Resultado, popularidade dos atuais governantes subindo e subindo, e até quem era contra agora acha que o país vai bem.

Mas o que pode até funcionar entre os refrigerantes, é amargo na política. Lobotomia na política é prejudicial porque governar a qualquer custo não quer dizer um bom governo. O povo vai bem sim, mas na pirâmide social, quem costuma se sair muito bem é a parte superior. E ninguém nem nota… Seguem votando, quer dizer, tomando Coca-Cola como se não houvesse amanhã.

Uma discussão se aprofunda no Congresso, e ganha as rodas de conversa informais: política e redes sociais. Há algumas semanas a pré-candidata a prefeita de Porto Alegre, Manuela Dávila, foi acusada de campanha adiantada através de contas do twitter, que facilmente foram negadas pela deputada, pois obviamente não foram criadas por ela.

De maneira errônea está se instalando uma tentativa de censura das mídias sociais, um controle que nunca será possível, ou que pelo menos não deveria ser concretizado. Censurar mídias sociais é como controlar as conversas que você tem entre amigos. Quem te segue, quem te adiciona, é porque te conhece, tem interesse no que você pensa, fala e compartilha. Então, não existe espaço para represálias. Até porque não existe legislação específica para o que é escrito na internet.

O controle do que os políticos falam na internet é uma luta perdida. A ferramenta serve para que ele saiba com mais facilidade o que o eleitor precisa, o que pensa. E também, o eleitor entende mais facilmente o seu governante, ou próximo governante. Ditaduras conhecidas como a chinesa, lutam arduamente contra as mídias sociais e vem perdendo gradativamente. Num país democrático como o Brasil, estabelecer uma lei específica para censurar as opiniões ditadas nas redes é retrocesso.

Opiniões servem para debater. O debate serve para encontrar soluções. Soluções inovadoras nos fazem avançar, sair da obviedade, enxergar além. Liberdade de expressão, essa deve ser a pregação principal das eleições de 2012. Tentar banir opiniões em grupinhos fechados em redes sociais é ditatorial. Revela falta de equilíbrio, personalidade dúbia e outros adjetivos nada agradáveis. Sou a favor da opinião livre e mais ainda do debate em busca de resultados. Opinar não é só reclamar, vale lembrar. Reivindicar e não só manifestar.

Felicidade interna bruta

20 abril, 2012

A felicidade é uma questão pública? Quando você já ouviu algum político dizendo nos palanques que está preocupado com o nível de felicidade da sua cidade? Provavelmente nunca. O que eles prometem são educação, saúde, segurança. Mas não se engane. Essas não devem ser promessas de campanha relevantes, são requisitos básicos de atendimento da população, e se os políticos não proverem esses requisitos, estarão burlando a lei. É direito nosso educação de qualidade, atendimento nos postos de saúde e hospitais, segurança no ir e vir. Direito nosso!

Mas e o povo da sua cidade, ele é feliz? Dá para medir a felicidade na sua cidade? Na era dos milhares de aplicativos na internet, agora dá. O MyFunCity, criado em outubro de 2011, é um aplicativo das redes sociais que permite à gestão pública avaliar a qualidade de vida dos cidadãos. A partir de 11 indicadores relacionados o aplicativo irá conferir o nível de satisfação da população sobre os serviços prestados pela gestão pública. Através do MyFunCity você poderá reunir em tempo real muitas exigências para transformar o seu ambiente em um lugar melhor para se viver, permitindo inclusive, interação entre os usuários. Um aplicativo para praticar cidadania.

O aplicativo promete uma revolução em prol da felicidade, começando no microcosmo, e com certeza, ganhará o mundo real. Já é possível isso através das redes sociais, quando os cidadãos tem acesso ilimitado na divulgação de suas reivindicações, atendidos geralmente com prontidão pelas administrações publicas, com medo das proporções que a reclamação pode atingir.

A plataforma MyFunCity é criada por brasileiros, povo que sim, preza a sua felicidade. Já fomos considerados inúmeras vezes o povo mais feliz do mundo, apesar de nossas deficiências nos atos básicos do dia-a-dia. Mas vale ressaltar que os políticos, apesar de óbvio, pouco valorizam ainda que os eleitores querem sim ser felizes, e isso depende do bom atendimento à população, com assistência em todos os setores. Felicidade, esse é o caminho. Eleitores, essa é a chance.  Novos gestores, é disso que precisamos.

Compromisso com o lixo

11 abril, 2012

Uma  das maiores reclamações que eu já presenciei em Salvador do Sul, que ganhou grandes proporções com a divulgação de fotos tanto na internet quanto foi pauta nos jornais, foi sobre o recolhimento do lixo. Devido problemas de manutenção do caminhão da prefeitura municipal, próprio para o recolhimento, e falta de funcionários habilitados para o mesmo, o problema apareceu e não agradou os olhos dos cidadãos salvadorenses, que dirá dos turistas que passam por aqui.

Alguns pontos tiveram o recolhimento atrasado em uma semana, o que já gera um certo desconforto, mas tiveram outros que o caminhão do lixo não passava há mais de mês. Moradores ligavam constantemente no jornal, mandavam emails com fotos anexadas, embasbacados com o relapso da prefeitura. Enquanto isso, a prefeita municipal buscava uma solução, que veio depois de alguns meses: a terceirização.

Com o assunto em pauta, e um lixo acumulado de cerca de um mês, a empresa contratada começou a trabalhar sem sequer um cronograma com as ruas, horários, enfim, os locais que deveria passar. Foi no escuro ajuntar quilos e quilos de lixo orgânico e inorgânico, já misturados pela ação de animais, com sacolas rasgadas, mau cheiro e tonéis entupidos, pendidos por abandono.

Aos poucos, a situação vem se regularizando na cidade, e a pauta deixa os jornais e as redes sociais. Mas aos meus olhos, tem muito a ser feito ainda. Salvador do Sul não tem um programa de coleta seletiva, por exemplo. Alguns vão desdenhar minha sugestão, afinal, há poucos dias nem se recolhia mais o lixo, que dirá fazer coleta seletiva. Mas, devido a época em que vivemos, isso é sim uma primeira necessidade. Revela um povo educado, o que já fomos, pelo jeito, porque ultimamente passamos a ouvir respostas ignorantes da gestão pública ao indagar informações. Do tipo, “não falo mais com essa jornalista…” Mas voltemos ao que interessa.

Desviemos da coleta seletiva e vamos para algo mais simples então. Com a terceirização da coleta do lixo em Salvador do Sul, entulhos passaram a não ser mais recolhidos. Segundo a empresa, isso não corresponde ao trabalho deles. Mais uma vezes temos que recorrer a prefeitura. No entanto, dessa vez, minha indignação não é com a administração municipal, e sim com os cidadãos deste município. Muitos não esperam o caminhão recolher o lixo para largar do lado dos latões móveis velhos, restos de obras, colchões, enfim, muitas coisas das quais deveria dar um destino correto de descarte. Até um sofá de dois e três lugares já foi largado no lixo. Óbvio que o caminhão de lixo daqui não iria recolher.

O que falta então? Educação. A prefeitura é responsável pelo lixo? Claro. Mas lixo é produzido dentro de casa e é nossa obrigação dar o destino correto a ele. Certas coisas precisam de um destino específico, como eletrônicos, pilhas e até mesmo os móveis largados por aí. Remédios também não podem ser jogados no lixo comum. Eles podem contaminar o solo e a água. Algumas cidades já tem programas para alertar a população. Mas cabe a nós dar o primeiro passo. Atitude diferenciadas podem ser difíceis no começo, mas é pelo bem comum que devemos nos adequar. Só benefícios virão. Devemos levantar sim a voz e exigir dos governantes ações para melhorar a qualidade de vida de todos. Mas precisamos nós também sermos os autores das mudanças no dia-a-dia.

Liberdade de expressão

24 fevereiro, 2012

Existe um limite para a tolerância­? Ou melhor, até que ponto devemos nos importar com certos assuntos que normalmente não nos diríamos respeito diretamente… Existe uma linha tênue entre reivindicar, criticar e ofender. Tem também uma diferença gritante entre defender seus direitos quando ao mesmo tempo você reprime seus deveres. O que tenho visto são incontáveis contestações em nome de um ideal falido, ou melhor, de um propósito individual que acolhe cinco ou seis pessoas diretamente, enganando indiretamente uma população de milhares de pessoas.

O resultado estamos vendo. Descaso, indiferença, luta pela defesa de um nome que não tem a menor relevância histórica e útil para uma cidade inteira. Um calçamento aqui, outro acolá enobrecem uma gestão de superfaturamentos a céu aberto. O lobo em pele de cordeiro é uma metáfora que se aplica. Uma cidade infundada em dívidas, com um nome sujo na praça porque uma pessoa fez de sua gestão uma vingança pessoal. Resultado, estamos vendo hoje em detalhes do cotidiano, que passam a se tornar grandes problemas. Mas eles tem um ideal.

O ideal de confundir, da lavagem cerebral. De bater tanto em uma tecla que já nem existe mais. O progresso deles está em galgar os degraus de suas próprias ambições. Falam em bem comum, mas não tem garra para conquistar nada para quem precisa realmente. Pensam em que afinal? Em juntar votos o suficiente para emplacar seu carro em letras garrafais exibindo a sua própria soberba em cima de, mais uma vez, milhares de pessoas. Infelizmente não acredito em mentiras, tão pouco me deixo enganar. Se incomodo pela sinceridade, cometerei sincerocídio. Se me cobrarem o silencio, voltarei a gritar a plenos pulmões. Se tem algo que aprendi vivendo em Salvador do Sul é que podemos amar um lugar com força, a qual resolvemos defender como se a terra fosse a nossa família. E mais, a profissão que escolhi não me deixa intimidar pelas ameaças, porque trabalho com a verdade. Lidamos com fatos, não lendas ou folclore.

É inquestionável o poder de uma reclamação nas mídias sociais. Uma imagem pode ser destruída em poucos minutos, então, a solução acaba surgindo quase que instantaneamente. A reclamação 2.0 atinge milhões de pessoas, e é muito mais eficiente que o PROCON, informou uma pesquisa, é na verdade oito mil vezes mais eficiente. Mas até para indagar, reclamar é preciso de coerência.

Hoje, as empresas já se especializam nessa área para atender os seus clientes ante as suas reclamações, para que ela não ganhe proporções que não poderão mais ser consertadas. Tal atitude cabe também aos governos. Criar um Governo 2.0 é essencial nos dias de hoje. Para isso, as gestões públicas vão precisar criar seus próprios vínculos com os cidadãos de sua cidade, visando atender toda essa demanda. Para criar esse laço com a sociedade, que cada vez mais habita o mundo virtual, é preciso criatividade, bom senso e coerência. Temos aqui em Salvador do Sul uma prova de que é necessário alguém que cuide dessa demanda. Muitos fazem suas reclamações via facebook ou twitter, sobre diversas questões, como desde a falta de recolhimento do lixo ao protesto de maus-tratos a animais. Questões de suma importância que merecem resposta e mais ainda de solução.

Claro, o que não convém é poluir as mídias sociais com constantes reclamações que não chegam aos maiores interessados. Hoje, por exemplo, a prefeitura de Salvador do Sul não tem um canal direto com as mídias sociais, por isso, levar essas reclamações para as redes sociais acabam sendoem vão. Deveriamser feitas diretamente na prefeitura, através de uma ouvidoria. Aliás, outro erro, pois nossa prefeitura não tem uma ouvidoria. Mas, direcionando às secretarias, muitos problemas seriam resolvidos mais rapidamente. Com a negação ou descaso, então sim, usar o mundo virtual para solucionar problemas reais. Na atual conjuntura, tem muita gente usando as mídias sociais para promover outras coisas, mas isso é outro assunto.

E o salário, ó…

13 fevereiro, 2012

Em uma pesquisa da Unesco constatou-se que o professor brasileiro tem o 3º pior salário no mundo. Segundo a pesquisa, isso é um reflexo da baixa qualificação profissional no ramo, sendo que no nordeste brasileiro, 51% dos professores têm curso superior completo, no sul 72%, no sudeste 73%, centro-oeste 74% e, o pior dado, nos estados como a Bahia e o Maranhão, apenas 40% têm curso superior. Comparando com nossos vizinhos, países latinos, temos o pior índice no ramo da educação, ocupando a 84ª, quando a Rússia, por exemplo, com uma população bem superior a nossa, e sendo também um país emergente, ocupa a 66ª posição.  O que adianta sermos atualmente a sexta maior economia, se nossa educação, que deveria ser prioridade, está sem os recursos e apoio necessário?

Não há investimento sério nem a nível federal, estadual ou municipal na educação. Basta conferir os orçamentos de cada cidade, ou do seu estado, se a prioridade é a educação. Nunca é! Mesmo a educação sendo catalisadora para o crescimento de um país. Historicamente estamos atrasados. A educação básica no Brasil só começou a ser expandida no fim dos anos 70. Frente a esses dados, muitos recaem a culpa em nossos docentes, que deveriam estar se atualizando, sendo que vivemos na era da informação. Políticas sociais são esperadas da ação dos professores, como se educação se resolvesse sem apoio. Ou seja, os professores não são os atores únicos dessa empreitada, mas precisam de atenção, de formação qualificada, e bons salários, claro.

O sistema de ensino no país ainda rasteja para atingir o nível zero de crianças analfabetas até oito anos. Os índices do IDEB também penam em atingir os níveis altos dos países desenvolvidos, com a nota seis. A meta é que até 2022 possam chegar lá. Mas, enquanto um país não desenvolver uma nova política de aprendizagem que estabeleça um ganho individual, do professor, e coletivo, dos estudantes de nosso país, ainda vamos penar até realmente chegarmos a ser um país de ponta.

Leitos x gestão pública

26 janeiro, 2012

Dias atrás estive no posto de saúde para um exame. Enquanto esperava, conversava com alguns pacientes que aguardavam atendimento, assim como eu. Em pleno janeiro, o número de pessoas era pequeno, ao contrário de outros dias, quando filas extensas se formam fora do Posto de Saúde, não importa se está fazendo 0°C, ou se está chovendo. Bom, nessa conversa, falávamos sobre a mercê que os brasileiros estão a espera de um atendimento nos hospitais. Não falo de um bom atendimento, e sim de conseguir ser atendido. Casos mais graves não são aceitos no Hospital de nossa cidade, e isso porque não existem equipamentos modernos ou profissionais em áreas específicas da medicina. O ideal seria então transferir para hospitais da região metropolitana, ou ainda em Caxias do Sul. A resposta no entanto é sempre essa: não tem leito.

Já vi e vivi isso no Hospital de Salvador, e se confirmou nessa conversa no Posto de Saúde. Muita gente já viu e viveu esse momento. Aí retruquei de cara: é um descaso não termos leitos para todos, e os corredores dos hospitais se amarrotarem em filas, e pior, os interioranos não tem a mínima chance de salvamento, sendo que não existe nem a possibilidade de transferência, dado os hospitais maiores nem aceitarem a entrada de mais pacientes. ‘Um absurdo’, argumentei na hora. Foi então que na hora uma pessoa retrucou minha veemente declaração. O problema não é o número de leitos, e sim a falta de gestão. Um baque de realidade. Fiquei pensativa, mas não tornei a falar com ninguém sobre esse assunto.

No entanto, hoje de manhã li esse interessante artigo do médico pediatra José Carlos Diniz Barradas, no espaço do leitor da Zero Hora, que fala justamente disto. Em uma passagem do artigo ele explica que os Hospitais brasileiros estão com o padrão de países desenvolvidos, que possuem em média 3 leitos para cada mil pessoas, o que é aceito inclusive pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde. Então, onde está o erro afinal? Erro de gestão. Segundo o médico, o atendimento ambulatorial está precário, profissionais com pouco comprometimento uma vez que ganham mal, e estão sem os equipamentos necessários, também não são cobrados da forma correta pelos responsáveis. E ainda, o médico afirma que esse atendimento ambulatorial resolve 90% da demanda de saúde, restando para os hospitais apenas 10%.

Aí, o pediatra reclama dos políticos que preferem garantir muitas ambulâncias porque rendem mais votos ao invés de apoiar os seus Hospitais regionais. Nossa, vi sob outra perspectiva e fui obrigada a concordar. Um bom atendimento inicial evitaria a invasão das pessoas em hospitais, que estão ali para resolver problemas de saúde mais graves. Nós, interioranos, teríamos mais chance de sobreviver ao invés de rezar para que fossemos aceitos em hospitais com mais condições de atendimento. E mais, garanto que muitas vezes, quando me senti mal, esperei chegar a noite para ir direto ao plantão receber um atendimento mais rápido, ao invés de enfrentar longas filas ou ouvir que as fichas do posto já acabaram. Claro, alguns vão dizer que eu deveria usar plano de saúde, ir direto para um atendimento particular. Mas existe muita gente que depende disso, é totalmente descabível a falta projetos que atendam e melhorem nosso sistema de saúde, começando em nossas pequenas cidades. Vivemos um amadorismo na gestão pública, do Oiapoque ao Chuí.

É hora de prevenir!

18 janeiro, 2012

Lamentavelmente Salvador do Sul vive uma sina. Nos últimos anos, a população fica ansiosa com a chegada do fim de ano ou os dias iniciais com medo de tragédias. E a quase profecia tem se cumprido fidedignamente. São incêndios, mortes e acidentes que a população custa a esquecer. Superstições a parte, o que me incomoda e me assusta ao mesmo tempo é a falta de cuidado para que esses eventos tristes ocorram insistentemente.

Mais uma vez Salvador do Sul viu seu patrimônio esvair-se em chamas na semana passada. Dessa vez foi a lavanderia do Hospital São Salvador que está destruída. Em poucas horas o fogo engoliu, apesar dos trabalhos dos Corpos de Bombeiros de toda região, incluindo o trabalho dos bombeiros voluntários de Salvador do Sul.

Com a crescente influência das redes sociais no município, logo após o incêndio nas imediações do Hospital, uma enxurrada de comentários surgiram nas páginas de internet, como facebook e twitter. Muitos reclamando sobre a falta de apoio para a Associação dos Bombeiros Voluntários de Salvador do Sul e São Pedro da Serra, e da mesma forma, lançando campanhas para que pudessem enfim adquirir o caminhão para a corporação. Ao mesmo tempo, levantaram o assunto de que muitas pessoas estavam utilizando a tragédia em prol de campanhas políticas adiantadas, já que estamos em ano eleitoral municipal.

Confesso: li indignada algumas opiniões. Falam que reclamar e levantar discussões é politiqueiro. Mas sabe o que acho mais politiqueiro é se conformar com a atual conjuntura. Quero declarar aqui minha total admiração pela Associação de Bombeiros Voluntários do nosso município e São Pedro da Serra. Acompanhei a sua criação depois da tragédia do ano de 2011 que destruiu o comércio de uma rua inteira. No nome do presidente, Ademir Lincke, quero enobrecer os trabalhos dessa Associação que nasceu devido a necessidade de uma região inteira que vive sob a mercê das tragédias. Precisamos da ajuda de municípios vizinhos hoje, que são muito maiores que nós, e priorizam os seus munícipes. Mas, estamos tendo a sorte, vejam só, sorte que eles estejam nos atendendo toda vez que solicitados, porque caso em suas cidades esteja acontecendo algo, não vão nos atender por lógica.

Fui a algumas reuniões com o comandante Portinho, de Bom Princípio, que disse há quase um ano, que caso o nosso Hospital sofresse com um sinistro, a situação seria dramática, pela falta de preparo e estrutura para retirar pacientes e equipe hospitalar. E após o incêndio na lavandeira, percebemos que o mesmo ocorre no Instituto Barbara Maix, asilo do município. Mais uma vez, por sorte, não tivemos vítimas, mas apenas perdas materiais.

Alguns comentam sobre o caminhão de bombeiros, vendido e que faz falta. Outros falam que era sucata, que não adianta falar sobre isso. Eu reitero sobre o seguinte: não é só o governo atual que é irresponsável, são quase 50 anos de emancipação política de Salvador do Sul, e nessas cinco décadas só uma vez o assunto foi interesse da gestão pública, quando o caminhão foi comprado. Depois disso, estagnação novamente. Não interessa agora o caminhão vendido, interessa que depois disso, nem investimento em uma mangueira foi feito, ou na capacitação de profissionais para auxiliar.

As campanhas lançadas nas redes sociais são válidas e interessantes, mas a Associação já vem trabalhando desde a sua criação, promovendo jantares, buffets de cachorro-quente, e recebendo apoio de associados. Claro, falta apoio ainda do poder público que pouco fez pela Associação. Alguns políticos parecem ter medo de fazer algo para enobrecer outros, e assim, empacam uma primeira necessidade do município. E ainda, em ano eleitoral, as coisas ficam bem mais complicadas e parece que teremos mais um ano de poucos investimentos nessa associação.

Todos sabem que bombeiros são os heróis da modernidade. Eles enfrentam tudo, fogo, água, catástrofes, em nome de pessoas, e não de ideais particulares. Vamos ajudar, cada um, sem procurar governos ou políticos. Um por um, na metáfora da formiguinha, vale muito mais que mil e uma discussões no facebook. Procurem a associação, vejam aonde que eles precisam de sua ajuda. Será bem mais válido e evitaremos novas tragédias. Prevenir, minha gente… Prevenir!

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