O dedo torto
20 outubro, 2011
O feio já nasce feio. Aí quando ele cresce fica gótico, e quando morre se torna especial. Palavras de Fabrício Carpinejar ditas em Salvador do Sul durante o Encontros com o Professor, com Ruy Carlos Ostermann. Ao dizer isso, Ostermann soltou uma sonora risada, acompanhado de outros sorrisos da plateia presente ao talk-show em plena Assemssul. A sintonia de ambos ficou evidente logo que Carpinejar escancarou que a voz de Ruy provoca ciúmes em sua esposa. Isso porque nada pode ser dito enquanto a voz de Ostermann está falando no inconsciente de Carpinejar. “Calma mulher, o Ruy ta falando”. E novas risadas estrondam pela sala.
Incrível como o cotidiano se torna poesia nas palavras de Carpinejar. E como ele facilita reflexões que jamais fazemos normalmente, e ainda, como ele demonstra que os detalhes são mesmo a melhor parte da vida. Ele chegou a dizer que entre o sucesso profissional e a família, ele sempre escolheria a sua família. Parece óbvio, mas o mundo todo escolhe a correria, o trabalho, e a vida profissional todos os dias, 8, 9 horas por dia. Muito mais tempo para a vida profissional do que para a vida familiar.
Mas o que realmente pulula para mim foi a sua relação com a própria aparência. Disse que sabe que é feio, e ainda acredita que se trata de uma dádiva. “Feio tem mais chance de ser famoso”. Para ele, os verdadeiros sofredores são os belos, porque são a maioria. Já os feios sempre serão notados, lembrados. Um feio que passa por ti, mesmo de relance, será visto. Um sonho com um feio poderá ser um pesadelo, e pesadelos que vão nortear o teu dia.
Aí Ostermann questiona se essa condição não atrapalhou a vida dele. “O contrário. Minha aparência me tornou mais afável”. Ponto. Principalmente as mulheres vivem essa paranóia da beleza, e sequer se importam com outras qualidades que são muito mais importantes. Mas é assim que somos, e os homens aprendem a conviver com isso. E ponto de novo. “Mulher se olha demais. E quando alguém olha para ela, desconfia que estejam olhando para aquele que considera seu defeito”, acerta mais uma vez o Carpinejar.
Mas aí vem a máxima que a maioria dos homens parece desconhecer. A mulher pode ser deslumbrante, mas acredita que tem o dedo torto. Por mais que ele não seja torto, ela acredita que é, é torto. Então o melhor não é convencer que ela tem o dedo torto. O homem ganhará a confiança e o amor da mulher se ele passar a amar o dedo torto dela. Amar o defeito dela. Nossa, para mim, foi conselho que se ouve em divã. O que é o amor se não houver respeito às diferenças. Aprender a conviver com os defeitos um do outro é o principio da tolerância, do bem viver, da comunicação, da felicidade.
A reflexão vale para muita gente. Mas cada um com suas idiossincrasias. Prefiro ficar com a mais paradoxal frase de Carpinejar: “Liberdade na vida é ter um amor para se prender”.
A Pottermania
15 julho, 2011
Minha amiga e colega de aula na época, a Rosana, estava comigo na biblioteca da escola São Salvador. Estávamos no 1º ano do Ensino Médio, primeiro ano em que comecei a estudar no período da tarde. Íamos vasculhando as prateleiras à procura de um livro interessante, diferente daqueles romances pré-adolescentes, como o famoso Rita quer crescer, ou algo assim, um dos mais disputados pelas gurias na época.
Logo encontro um com uma capa bem colorida com a imagem de um guri, sorridente, de óculos, cicatriz em forma de raio na testa, e acima, letras garrafais: Harry Potter. Penso um pouco e me pergunto: já ouvi esse nome em algum lugar. O ano era 2001 e o primeiro livro do bruxinho foi lançado pela J.K. Rowling em 1997, mas mesmo assim o sucesso não era esse estrondo de hoje. Passado alguns segundos, lembrei que tinha lido uma matéria sobre aquele livro em alguma revista, e que estava vendendo bicas, que era diferente, um sucesso mundial. Tanto que hoje, segundo o Wikipédia, o primeiro livro da série, Harry Potter e a Pedra Filosofal, foi o mais vendido, com 120 milhões de cópias comercializadas. E Rowling, a mulher mais rica da literatura.
Me rendi às referências e peguei o livro emprestado. Foi amor à primeira lida. Simplesmente me encantei com as aventuras vividas pelo bruxo órfão, que vivia embaixo da escada, e que só soube que não pertencia ao mundo dos trouxas quando completou 11 anos e foi avisado pelo meio gigante Hagrid, cuja aparência assustava, mas era mais bondoso que qualquer outro semi-humano. As descrições detalhadas de Rowling, misturando o mundo da magia, toques pitorescos e lendas ganham forma na imaginação e se sustentam nas manifestações de sentimentos fortes dos personagens, como amor, amizade, família.
No instante que Harry Potter é apresentado à magia, todos nós vamos aprendendo com ele o quanto delicioso pode ser um suco de abóbora, que os feijõezinhos são de todos os sabores, de chocolate à meleca de nariz, que um chapéu pode ser muito inteligente, que as imagens não são momentos congelados, que podemos nos defender de todo mal com pensamentos felizes, basta conjurar um patrono.
Aos 14 anos fiquei fissurada por Harry Potter e a Pedra Filosofal, quando ele conhece seus amigos Rony Wesley e Hermione Granger, o quadribol e a escola de magia Hogwarts. Dessa forma a leitura não poderia cessar no primeiro livro. Veio então a Câmara Secreta e os temores do basilisco e a descoberta que Harry falava a língua das cobras; Prisioneiro de Azkaban quando Harry descobre que Sirius Black é seu padrinho; Cálice de Fogo e o primeiro encontro com Voldemort; Ordem da Fênix e as batalhas do bem contra os comensais da morte; Enigma do Príncipe e a morte de Dumbledore e o início da busca pelas Horcruxes e Relíquias da Morte, onde finalmente a batalha entre Harry e Voldemort acontece onde toda história começou, Hogwarts.

Lia os livros na escola, na rede nos fundos da minha casa, na praia, na minha cama no inverno, no ônibus indo para a universidade e no campus da Unisinos. Sim, comecei a ler os livros ainda adolescente e terminei de lê-los adulta. O que no início era uma incontrolável vontade de devorar os livros, me tornando quase fanática, com o passar do tempo fui gostando e me deliciando com cada página. Ri sozinha com as estripulias dos gêmeos Wesley, chorei copiosamente com as mortes intragáveis de personagens tão queridos do último livro, ao ponto de fechar, respirar fundo, me recompor, e voltar a ler.
Os filmes são um capítulo a parte nessa jornada, do qual todos leitores pottermaníacos irão concordar que cada um deles deixou muito a desejar em relação aos livros. Mas mesmo assim ganharam corpo e foram muito fieis à imaginação de toda legião de leitores. Hoje se encerra o maior evento cinematográfico dos últimos tempos, mas para mim, sentada no campus da Unisinos, esperando o início de mais uma aula, ao término das 800 e poucas páginas de Relíquias da Morte, já comecei a sentir saudades de todo aquele mundo fantástico. Mas sei que sempre posso voltar, e rever, reler e re-imaginar para sempre que eu puder dar um pulo no Beco Diagonal, passando pela estação 9 e meia, pegando o expresso Hogwarts e chegar novamente no fantástico mundo de Harry!
Epílogo
O poeta salvadorense Geison de Moraes inspirado no meu post sobre os livros da JK Rowling, escreveu o poema abaixo. Achei bem legal, aí resolvi dividir com vocês:
O final de um livro
Por Geison de Moraes Machado Leia o resto deste post »