Leitos x gestão pública

26 janeiro, 2012

Dias atrás estive no posto de saúde para um exame. Enquanto esperava, conversava com alguns pacientes que aguardavam atendimento, assim como eu. Em pleno janeiro, o número de pessoas era pequeno, ao contrário de outros dias, quando filas extensas se formam fora do Posto de Saúde, não importa se está fazendo 0°C, ou se está chovendo. Bom, nessa conversa, falávamos sobre a mercê que os brasileiros estão a espera de um atendimento nos hospitais. Não falo de um bom atendimento, e sim de conseguir ser atendido. Casos mais graves não são aceitos no Hospital de nossa cidade, e isso porque não existem equipamentos modernos ou profissionais em áreas específicas da medicina. O ideal seria então transferir para hospitais da região metropolitana, ou ainda em Caxias do Sul. A resposta no entanto é sempre essa: não tem leito.

Já vi e vivi isso no Hospital de Salvador, e se confirmou nessa conversa no Posto de Saúde. Muita gente já viu e viveu esse momento. Aí retruquei de cara: é um descaso não termos leitos para todos, e os corredores dos hospitais se amarrotarem em filas, e pior, os interioranos não tem a mínima chance de salvamento, sendo que não existe nem a possibilidade de transferência, dado os hospitais maiores nem aceitarem a entrada de mais pacientes. ‘Um absurdo’, argumentei na hora. Foi então que na hora uma pessoa retrucou minha veemente declaração. O problema não é o número de leitos, e sim a falta de gestão. Um baque de realidade. Fiquei pensativa, mas não tornei a falar com ninguém sobre esse assunto.

No entanto, hoje de manhã li esse interessante artigo do médico pediatra José Carlos Diniz Barradas, no espaço do leitor da Zero Hora, que fala justamente disto. Em uma passagem do artigo ele explica que os Hospitais brasileiros estão com o padrão de países desenvolvidos, que possuem em média 3 leitos para cada mil pessoas, o que é aceito inclusive pelo Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde. Então, onde está o erro afinal? Erro de gestão. Segundo o médico, o atendimento ambulatorial está precário, profissionais com pouco comprometimento uma vez que ganham mal, e estão sem os equipamentos necessários, também não são cobrados da forma correta pelos responsáveis. E ainda, o médico afirma que esse atendimento ambulatorial resolve 90% da demanda de saúde, restando para os hospitais apenas 10%.

Aí, o pediatra reclama dos políticos que preferem garantir muitas ambulâncias porque rendem mais votos ao invés de apoiar os seus Hospitais regionais. Nossa, vi sob outra perspectiva e fui obrigada a concordar. Um bom atendimento inicial evitaria a invasão das pessoas em hospitais, que estão ali para resolver problemas de saúde mais graves. Nós, interioranos, teríamos mais chance de sobreviver ao invés de rezar para que fossemos aceitos em hospitais com mais condições de atendimento. E mais, garanto que muitas vezes, quando me senti mal, esperei chegar a noite para ir direto ao plantão receber um atendimento mais rápido, ao invés de enfrentar longas filas ou ouvir que as fichas do posto já acabaram. Claro, alguns vão dizer que eu deveria usar plano de saúde, ir direto para um atendimento particular. Mas existe muita gente que depende disso, é totalmente descabível a falta projetos que atendam e melhorem nosso sistema de saúde, começando em nossas pequenas cidades. Vivemos um amadorismo na gestão pública, do Oiapoque ao Chuí.

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